Uma iniciativa de restauração da área florestal da Mata Atlântica, na Bahia, apresentou resultados eficientes ao reduzir o tempo de crescimento das espécies em até 50% e recriando florestas produtivas mais resilientes às mudanças climáticas.
Segundo a supervisora de melhoramento genético, pesquisa e desenvolvimento da Symbiosis, Laura Guimarães, o trabalho é parte de uma estratégia de recuperação ambiental que teve início em 2014, com a coleta e mapeamento para identificar indivíduos com maior potencial de conservação em cada uma das espécies estudadas.
Notícias relacionadas:Revisão do IBGE: Mata Atlântica perde 1% de área e Cerrado ganha 1,8% .Mata Atlântica perde 2,4 milhões de hectares em 40 anos.Apesar da redução, desmatamento ainda ameaça futuro da Mata Atlântica.O resultado alcançado pela Empresa Brasileira de Reflorestamento permitiu a recuperação de 1 mil hectares do bioma a partir da seleção genética de 45 espécies nativas. Exemplares como jacarandá, jequitibá, ipês, angicos e muitos outros foram escolhidos para o plantio, a partir de suas capacidades de adaptação e desenvolvimento em diferentes contextos.
“Muitas dessas matrizes são centenárias, sobreviveram ao processo histórico de exploração da Mata Atlântica e carregam uma genética extremamente adaptada”, explica o gerente do viveiro de mudas da Symbiosis, Mickael Mello.
Além da escolha dos indivíduos mais capazes, as novas florestas foram estruturadas de forma a garantir variabilidade genética e reduzir riscos associados a homogeneização.
“Indivíduos com diferentes comportamentos e níveis de adaptação são essenciais para a recomposição da diversidade. Ao identificar e selecionar aqueles mais adaptados e resilientes, favorece-se a recuperação de populações mais estáveis e preparadas para enfrentar os desafios ambientais”, disse Laura Guimarães.
Brasília (DF), 20/02/2026 – Primeira fase de crescimento das mudas no viveiro em área sombreada. Estratégias de reflorestamento da Mata Atlântica. Foto: Symbiosis/Divugação – Symbiosis/Divugação
Impactos
A vegetação nativa da Mata Atlântica já cobriu cerca de 130 milhões de hectares do território nacional, uma área equivalente ao tamanho de países vizinhos como o Peru. Hoje, o Brasil mantém apenas 24% dessa cobertura verde, mas só 12,4% são de florestas maduras e bem preservadas, espalhadas em fragmentos de cobertura verde existentes em 17 estados.
“Essa fragmentação reduz o número de indivíduos, compromete a variabilidade genética e enfraquece a capacidade adaptativa das espécies. Sob pressão da dinâmica de uso e ocupação do solo, essas populações tornam-se mais suscetíveis a eventos como déficit hídrico e mudanças climáticas, o que pode levar ao seu declínio progressivo”, analisou o gerente de Restauração Florestal da Fundação SOS Mata Atlântica, Rafael Bitante Fernandes.
Para Fernandes, menos diversidade impacta diretamente a vida das pessoas, porque diminui a capacidade dos ecossistemas de prestarem serviços que garantem a disponibilidade de água, qualidade do ar, qualidade do clima, controle de doenças e produtividade de alimentos.
“Por fim, isso acaba contribuindo, de forma global, para todos esses problemas climáticos que a gente vem tendo, de chuvas e secas cada vez mais intensas, os extremos climáticos mais constantes, e as tragédias cada vez mais acontecendo – grandes enchentes, enxurradas e escassez de água “, acrescenta o gerente de Restauração Florestal da Fundação SOS Mata Atlântica.
De acordo com Fernandes, a pressão gerada pelo declínio da Mata Atlântica e o risco econômico associado aos seus impactos tem gerado um novo posicionamento de empresas privadas que passam a ver a restauração florestal como investimento e oportunidade de negócio e abandonam cada vez mais a ideia de filantropia.
“Existem hoje modelos de restauração florestal que contemplam um bom manejo dessa floresta. Então você tem uma exploração permanente, inclusive de produtos madeireiros, mas nunca faz o corte raso daquela floresta ali. Continua sequestrando carbono, faz o uso nobre dessa maneira e ainda pode aproveitar outros subprodutos que não sejam madeireiros como óleos e essências”, explica.
Com finalidades diversificadas, a restauração da Mata Atlântica foi ganhando em métodos, formas e caminhos possíveis, que vão desde a transformação de solo sem viabilidade agrícola em uma floresta produtiva, até a proteção de recursos que dependem da biodiversidade existente para a viabilidade econômica de um negócio.
“A gente tem, por exemplo, empresas geradoras de energia elétrica através da água, para as quais a gente fez projeto de proteção dos mananciais que abastecem essas hidrelétricas. Consequentemente, além de proteger a floresta ali existente, você dá uma longevidade melhor para esse negócio, reduzindo o risco em períodos mais secos ou de fortes chuvas “, acrescenta o gestor florestal.
Brasília (DF), 20/02/2026 – Mudas enxertadas de material genético selecionado. Estratégias de reflorestamento da Mata Atlântica. Foto: Symbiosis/Divugação –










